Estaremos aceitando submissões de resumo a partir de 1 de março!!!
Por: Josiane Pinheiro da Silva, aluna de Graduação em Ciências Biológicas pela UFF.
Orientação: Prof.ª Dr.ª Lucianne Fragel Madeira e Dr. Gustavo Henrique Varela Saturnino Alves
Viver em pleno século XXI está, indispensavelmente, associado a viver rodeado de tecnologias, seja no ambiente de trabalho, para comunicação ou direcionado ao entretenimento. De maneira que, se tornou comum ver, inclusive,crianças de 8 anos, ou até menos, fazendo uso de telas. De acordo com um estudo do IBGE de 2023, 88% dos brasileiros acima de 10 anos fazem uso regular de celulares. Entretanto, biologicamente não precisamos deles para sobreviver, mas de alguma forma os celulares se tornaram parte indispensável do nosso cotidiano e é indiscutível o quanto esses aparelhos tornaram o acesso à informação, comunicação e entretenimento mais fáceis e rápidas de se alcançar. Mas será que eles possuem apenas benefícios? E qual o impacto que esse elemento consideravelmente novo na nossa história pode ter no nosso cérebro?
O que é neuroplasticidade?
A neuroplasticidade ou plasticidade neural é um termo usado para se referir a capacidade plástica do cérebro, isto é, a capacidade de se modificar, estruturalmente e funcionalmente, ao longo de toda a vida em função de fatores intrínsecos e do meio externo. Por exemplo, já ouviu falar do membro fantasma? É comum relatos de pessoas com um membro amputado dizerem que ainda o sentem e até sentir uma dor que vem desse membro perdido! Isso tudo porque as conexões neurais que existiam para aquele membro não se perderam, continuaram existindo e podem ser ativadas, tudo por causa dessa plasticidade neuronal que reorganizou essas conexões.
Celulares no desenvolvimento
Essa capacidade plástica do nosso cérebro é muito importante principalmente no período de desenvolvimento (infância e adolescência) e diversas pesquisas têm mostrado que o celular tem um impacto negativo nesse ponto.
Na infância, muitos pais acabam dando celulares pros filhos, por não ter tempo de brincar com a criança ou levar ela para brincar com outras crianças. Apesar de ser uma forma de distração como uma brincadeira, a falta de convívio com outras crianças e a falta de estímulos que as brincadeiras infantis trás afeta o desenvolvimento do córtex, em áreas responsáveis pelo processamento cognitivo superior, funções executivas e processamento de emoções. Sem o estímulo dessa área, processos como atenção, memória, linguagem, pensamento crítico e criatividade são afetados. Dessa forma, o uso de telas não ativa essas áreas, o que afeta as capacidades cognitivas, tomada de decisões e regulação emocional. Além disso, crianças com uso de tela excessiva também possuem maior predisposição de desenvolver o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), já que a área responsável por fortalecer a atenção não está sendo ativada corretamente.
Na adolescência também temos grandes impactos no desenvolvimento, principalmente em comparação aos adultos, devido aos adolescentes passarem mais tempo expostos às telas e por estarem neste período, a capacidade plástica do cérebro é muito maior do que nos adultos. Foi encontrado que essa exposição prolongada e excessiva nos adolescentes diminui o volume cerebral de algumas áreas, principalmente de áreas subcorticais como o cortéx pré-frontal e o córtex orbitofrontal. Em compensação, o volume de algumas outras áreas são aumentadas, como o lobo posterior direito do cerebelo(controle motor e atenção), o giro lingual direito (processamento visual) e o giro frontal médio esquerdo (controla impulsividade, funções executivas e regulação emocional). Tudo isso indica que o cérebro está tentando compensar os efeitos gerados por esse uso excessivo, aumentando áreas que são mais usadas no dia a dia em detrimento de outras não tão ativadas ao longo do nosso dia. E essa mudança estrutural tem sido relacionada com aumento de casos de ansiedade, depressão e TDAH em adolescentes.
Outras consequências do uso excessivo de celulares.
Além das outras alterações já faladas, o uso excessivo das telas mexe com o sistema límbico, também chamado de sistema recompensa, em que se tem a liberação de dopamina, gerando a sensação de prazer em decorrência de alguma atividade, comida ou objeto. Um exemplo são os famosos vídeos curtos que estão presentes em diversas redes sociais como Instagram, Tik Tok e Youtube. A cada vídeo curto tem liberação de dopamina, logo o usuário sente a sensação de recompensa e prazer, buscando mais vídeos curtos, o que libera mais dopamina e prazer, e como o nosso cérebro se adapta a estímulos, cada vez mais ele vai precisar se expor a esses conteúdos para obter aquela sensação de prazer e recompensa que seu cérebro lembra obter por esses vídeos, fazendo com que busque mais e mais.
Além do vício, temos alteração do ritmo circadiano pela exposição da luz azul e pela presença dos estímulos visuais e/ou auditivos. Isso afeta nossa rotina de sono, o que pode gerar distúrbios do sono, e aumentar o risco com isso de depressão, diabetes, ansiedade e obesidade. Também foi mostrado que essa exposição aumenta o risco de desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a Doença de Alzheimer.
Isso não quer dizer que devemos parar de usar celulares e nos isolarmos do meio digital. É apenas um alerta de como a exposição excessiva pode prejudicar o nosso cérebro e a nossa saúde. Estabelecer limites na vida é importante em todas as áreas, e o uso de celular e tecnologias não deve ser exceção.
Referências:
Neuropsychological and behavioral implications in childhood and adolescence from the use of screens
O uso excessivo de dispositivos eletrônicos pode prejudicar o desenvolvimento infantil